Contos políticos do jornalista Magno Martins: em Arraes 1988

,
Na disputa pela Prefeitura do Recife em 1988, com Miguel Arraes eleito dois anos antes governador de Pernambuco numa das campanhas mais emocionantes ocorridas no Estado, simbolizada pela esperança com a volta do mito que fora exilado na Argélia, a esquerda levou um grande tombo, derrotada por Joaquim Francisco.
Advogado, militante histórico do então MDB, deputado estadual e deputado federal, Marcus Cunha foi escolhido candidato a contragosto de Arraes, por uma imposição de Jarbas Vasconcelos, que fazia uma gestão bem-sucedida no Recife e que por isso mesmo achava que podia eleger um poste.
Arraes, na verdade, maquiavélico como era, já brigado com Jarbas, deixou a campanha correr à sua revelia, não fazendo o menor esforço para eleger Cunha. O insucesso eleitoral no Recife, para ele, não seria da esquerda, mas do próprio Jarbas, que em 1982 não apoiou seu nome para governador, instigando Marcos Freire, derrotado por Roberto Magalhães.
No exílio, Arraes projetava ser eleito governador na primeira eleição após a sua volta ao Brasil, que se deu em 1979, para pavimentar uma possível disputa presidencial, como Brizola fez, após eleito governador do Rio. Não contava encontrar no seu Estado uma pedra chamada Marcos Freire e a má vontade de Jarbas, com quem rompeu mais frente.
No transcurso da campanha de 88, Arraes foi a Brasília cumprir uma agenda administrativa e outra política, esta no Congresso. No salão verde da Câmara, local onde se concentra o maior número de jornalistas por metro quadrado do País, o governador deu uma entrevista coletiva falando de temas nacionais.
Então diretor da sucursal do Diário de Pernambuco em Brasília, que havia fundada um ano antes, numa festa no Lago Sul que contou com a presença até do presidente Sarney, teria que puxar um assunto local para render a manchete. E foi aí que me veio à cabeça a ideia de fazer a seguinte pergunta:
“Governador, sobre a campanha no Recife. O que se diz nos bastidores é que o senhor não tem movido uma palha em favor de Cunha. O senhor não se empolgou ainda com a candidatura de Marcus Cunha?
A velha raposa olhou para mim, diante de um batalhão de repórteres, e com sarcasmo irrepreensível, tascou:
“Meu filho, já disputei muitas eleições e mesmo jovem nunca me empolguei com minhas candidaturas, imagine, agora já velho, se iria me empolgar com candidaturas de outros”.
E deu uma sonora gargalhada!

0 comentários:

Postar um comentário